quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

De Profundis Clamavi


Passam-se minutos, horas, dias, meses. Me afogo, me afogo dentro de mim.
Como explicar a sensação de estar vazia de si, e preenchida de outros? Como explicar ao mundo que o seu exterior, estátua de mármore, guarda uma essência obscura, forjada com toda a dor e agonia do mundo. Como explicar que até mesmo a empatia em excesso destrói?
Destruo-me, desfaço-me. Permuto minha essência à centenas, e ali me perco, neste turbilhão de emoções humanas.
Busco a superfície, busco o ar revigorante. Algo me puxa novamente para as profundezas. Minha prisão líquida, constituída de correntes de entorpecimento.
Sou réu, acusada de egoísmo. Talvez eu de fato seja. Talvez eu devesse deixar que cada um sentisse sua dor, cada um resolvesse seus problemas. Porque tomar tudo para si?
Idealista, idealista em excesso. Não posso mudar o mundo sozinha. Esta é a fonte odiosa da minha agonia.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A limine


Escrevo, escrevo, escrevo. Apago. Me reinvento. Rasuras, traços apagados, borrados, papel rasgado em tiras. Deixo a tinta da minha alma escorrer pelas folhas imaculadas. Me transformo.
Estou aprendendo a metamorfosear. A comodidade, a dependência (de pessoas ou o que quer que seja) e o medo do futuro aprisionam. Tornam-te algoz e vítima, aprisionado e torturado por si mesmo. Claustro anímico.
Que eu tenha sabedoria para ser água líquida, fluindo e contornando as grandes rochas. Que eu não volte a ser pedra, rígida e estagnada em uma mesma situação.
Que eu consiga ter compaixão e misericórdia pelos lugares mais escuros do coração humano, ainda que lá talvez não haja nenhuma.
Que eu siga firme nos meus anseios e no que acredito ser certo, mas que eu sempre me dê o benefício da dúvida e mantenha acesa a chama do questionamento, e tenha a coragem de mudar de opinião assim que eu perceber que determinada coisa já não me serve.
Que ainda que eu tenha pouco, eu tenha bondade e consciência para dividir o pouco que tenho com aqueles que não possuem nada.
Que eu nunca permita que o rancor apodreça minha alma, nem que o ódio me torne um receptáculo. Que eu saiba senti-los no momento certo e depois superá-los.
Que eu saiba conviver com ideologias e pensamentos diferentes dos meus, mas que eu tenha amor-próprio para cortar laços assim que alguma relação se torne tóxica.
Que 2017 seja um ano de reparação de danos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Breve ensaio sobre homens covardes


 Aviso de gatilho: esse texto toca em assuntos inerentes à violência contra a mulher.

Andei refletindo muito sobre isso ultimamente. Com a polêmica e a popularidade do tema aborto e a defesa de sua descriminalização, percebo que cresceu o índice de homens escarrando misoginia por toda a internet brasileira. O que permeia a existência dos homens covardes? O que leva alguém a destilar seu ódio, oculto por uma tela de computador?

Sim, certamente você conhece ao menos um espécime. Este é aquele homem que costuma aparentar uma conduta impecável, uma cortesia indelével. Essa mesma criatura, ao se deparar com uma mulher com a qual possua discordâncias, fica podre como o hálito do inferno. Se transmuta em uma fera odiosa, que com suas faces retorcidas pela raiva, comete todo tipo de atrocidade.
Seriam essas criaturas meio-homens, meio-bestas? Ou talvez ser homem signifique portar um certo privilégio para agir como besta?

Vadia, puta, vagabunda. Quantas de nós já não ouvimos tais dizeres? Em algumas de nós, vieram acompanhados por tapas, socos, chutes. Estupro. Será a violência na web o reflexo da violência na vida real, ou a violência na vida real um reflexo da violência na web? A vida em ambos os mundos se convergem, como linhas em uma intersecção. A violência se repete, como um loop infinito. E nós, estamos presas nesse bug, nos convertendo em vítimas infinitamente.

Gostaria de dizer que esse texto terá uma conclusão um dia, mas o mais provável é que nunca terá. Não tenho respostas, apenas mais e mais questionamentos a serem levantados. Infinitas perguntas em aberto, tão infinitas quanto a dor de todas as mulheres injustiçadas. Tão confuso quanto eu, no dia em que policiais consolaram meu agressor ao invés de mim.

Resenha: Pistoleiros/Putas e Dementes



Olá galerinha! O livro da semana é "Pistoleiros/Putas e Dementes".

"Não esqueça de tirar o lixo

As mudanças mais profundas são aquelas em que tudo permanece igual. Todos os invernos se parecem com o pior inverno e nenhuma paisagem se compara com as remotas paisagens da infância. Se há alguma razão para outros amores é lembrar-nos de que não são o único."

O livro se inicia por "A Máquina de Somar Zeros", onde o autor nos presenteia com uma dose cavalar de sua sinceridade. Efraim Medina Reyes nos apresenta um pouco de sua visão de homem, conta um pouco de sua trajetória e tece críticas aos editores. Após, o livro divide-se em "Traseiros Assassinos", "O Verme Metafísico" e "Clube de Pistoleiros, cada parte contendo uma seleção de poemas.

"A verdade é que me interessa pouquíssimo se vender poemas é bom ou mau negócio; trancado naquele quarto calorento onde comecei a escrevê-los, não pensava nisso, não pensava em nada... só em frear a angústia implacável e a vontade de morrer."

Bom, eu não fui uma entusiasta do estilo do Efraim Reyes. Para ser bem honesta, me angustia a ideia de que alguém possa reduzir seres humanos à mamíferos estúpidos e filhos da puta, com o perdão da palavra e já avisando à quem se propor a ler que irá se deparar com muita linguagem de baixo calão. 
Reyes possui uma visão de mundo um tanto deprimente, e a exprime de maneira magistral em cada poema. Também possui uma visão repugnante sobre mulheres, e a expressa em trechos hediondos como esse:

"Uma mulher feia tem duas opções: se matar ou criar um estilo. A pior coisa que uma mulher feia pode fazer é fingir que não é feia, isto é quase tão ruim como não ter um pingo de beleza. É o tipo de coisa que desacorçoa os caras simpáticos."

O que não é surpresa, visto que no início do livro ele diz já ter sido acusado de misoginia por conta de um livro intitulado "Chupa menina, mas devagar".

A impressão que tive lendo os poemas do autor é que tudo é nojento, feio ou hipócrita. Tive dificuldade para terminar, pois a cada página que eu lia, o desejo crescente era de abandoná-lo. Ainda que eu tenha gostado de alguns poemas, como "Uma Parede", onde ele nos induz à  reflexão sobre a construção de barreiras, o livro como um todo é algo que eu não recomendaria a ninguém. A primeira parte, "Traseiros Assassinos" é terrível; em "O Verme Metafísico" o livro se torna melhor, talvez por ser mais suave, e em certa medida, até mais doce. E para não ser injusta com o autor, esse é o primeiro livro que leio de sua autoria, então talvez os próximos sejam melhores. 

Pistoleiros/Putas e Dementes (2006), é de autoria do colombiano Efraim Medina Reyes e publicado no Brasil pela Editora Garamond.

Abraços e até a próxima!

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O mundo anda tresloucado


Vista privilegiada do meu campus

Andei divagando bastante nos últimos dias, até que submergi em meus próprios pensamentos. Me afoguei, voltei, expeli. Fui acometida por uma tristeza e sensação de desemparo indescritíveis. O mundo anda tresloucado, as pessoas mais ainda.

O que diabos estamos fazendo conosco e com o outro? Será que nossas línguas gangrenarão se gritarmos HEY, EU TE AMO ao invés de sofrermos por alguém que sequer conhece nossos sentimentos? Será que ficaremos miseráveis se acreditarmos na palavra daquele morador de rua que pede esmolas para comer? Será que se nos permitirmos sermos menos orgulhosos e tirarmos a armadura de intangibilidade, iremos à ruína? Será que se rompermos o vínculo com aquela pessoa que diz nos amar, mas suga nossos sonhos até que não reste mais nada, morreremos?
Nós somos vítima e algoz, chama e mariposa.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Resenha: O Incrível Dom de Oscar




Olá galerinha! O livro da semana é "O Incrível Dom de Oscar".
"Esquecemos tanta coisa sobre a pessoa que sofre de demência. Olhamos para ela e esquecemos todas as recordações anteriores. Ela continua ali, na nossa frente, e nos lembra alguém, mas não é mais a mesma. Temos que aprender a amar quem ela é agora."
O livro é ambientado no lar de idosos Steere House, em Rhode Island, e aborda de forma delicada a questão da demência em idosos. David Dosa é um médico que, escolhendo um caminho totalmente diferente de sua família de pediatras, opta pela geriatria. É um cientista, e após saber sobre o suposto dom do gato Oscar de prever a morte dos pacientes, busca evidências de que sua fama seja real, retomando contato com os familiares dos pacientes que faleceram na casa.
Oscar é um gato preto e branco, arredio na maior parte do tempo. Porém, quando adentra o quarto de um dos pacientes e deita-se na cama, iniciando sua vigília, os familiares sabem que é hora de se despedir.
Gatinhos fofos nos acompanham na leitura!

A edição é uma fofura só, possuindo gatos desenhados de diferentes formas no rodapé das páginas. A leitura é fluída, a linguagem é simples e o livro oferece um olhar sob a perspectiva de familiares e profissionais que convivem diariamente com pacientes portadores de demência, como o mal de Alzheimer, proporcionando um exercício de empatia. Vemos também a mudança do Doutor Dosa ao longo das páginas, que conforme escuta os relatos dos familiares dos pacientes que passaram pela clínica, torna-se cada vez mais empático.

"Será que importava se possuía alguma percepção extrassensorial, se detectava a morte iminente antes das mentes mais brilhantes da medicina? Talvez Oscar fosse apenas um mestre da empatia. Talvez seu único poder fosse a capacidade de se importar."
David tem o talento necessário para abordar temas que usualmente causariam desconforto. De maneira amena, em diálogos de seu cotidiano na busca da veracidade sobre Oscar, ele nos leva a refletir sobre nós e o que conhecemos e acreditamos. O médico apresenta o lado burocrático do sistema de saúde estadunidense e a dificuldade com que muitas famílias se deparam de encontrar informação sobre tratamentos e internações necessárias aos seus entes queridos; expõe a face da deterioração cognitiva, e da dor que esta causa aos familiares que passam a ser vistos como estranhos; revela o cansaço, a tristeza e a culpa que acomete e devora.

Certamente é uma boa pedida para quem deseja um leitura leve e agradável, mas que proporcione uma contemplação, e talvez uma reconsideração sobre o que sabemos da vida.

"Making Rounds with Oscar" (2010), ou "O incrível dom de Oscar", como é conhecido por aqui, foi escrito por David Dosa e publicado pela Editora Ediouro.

Abraços e até a próxima!

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Um poema meu e pensamentos sobre o cotidiano

Escrevo um pouco. Em sua grande maioria são poemas, mas rabisco alguns textos também. Cada um lida de uma forma com seus demônios, e acho que essa foi a forma que encontrei de exorcizar os meus.
Nós, seres humanos, somos todos meio loucos. Escondemos nossas fraquezas sob uma máscara de orgulho para que ninguém nos julgue como fracos. Buscamos nos preencher em relacionamentos cada vez mais vazios a fim de mascarar nossa própria incompletude, nossa própria solidão. Nos apegamos a coisas materiais e quando as perdemos, nós surtamos e nos desesperamos. Jogamos nossa saúde fora por coisas cada vez menores e fúteis, e depois nos entupimos com drogas cada vez mais fortes (algumas legalizadas, algumas não), tentando reparar os danos. Antidepressivos, antipsicóticos, ansiolíticos e tudo por uma causa: não sermos capazes de sermos gentis conosco.
Depois dessa pequena reflexão, deixo aqui um poema de minha autoria, escrito em 2014, quando eu tinha 17 anos.

Ária à um tirano

Oh, meu doce coração solitário
Tu, que pulsas profanando minh'alma
Condena-me com tua silente calma
Oh, dor congênita de meu calvário

És minha virtude e minha maldição
Rei dos reis, sórdido e triste
Quimera maldita que me aflige
Oh, meu déspota sem compaixão

Pulsa, pulsa, anatemático
Meditabundo, alheio à minha dor
Leva sangue ao meu espectro sorumbático
Nostalgia embalada por notas de torpor

Amo-te insanamente, meu poeta doentio
Sou musa sepulcral de teus sonhos mortos
Reina no teu trono lacrimoso de suplício
E faz-me tua amada, meu menestrel de versos tortos!